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Justiça imanente - parte XXI (final)



Um dia em que o homem veio buscar os filhos
A mulher resolveu que aquela era a altura ideal
Foi com eles, conversou sobre os idos sarilhos
E como a sua decisão fora precipitada e brutal

Explicou-lhe que estava deveras arrependida
Que podiam ter sido muito felizes todos juntos
Que a sua afeição era semelhante aos presuntos:
Com o passar do tempo ficava mais favorecida

O homem ficou com isto bastante maravilhado
Não suspeitara que a alteração tão drástica seria
Após pouquíssimo tempo se ter ainda passado
O grande erro era afinal ela quem o admitia…

Ele propôs-lhe que para a sua casa tornasse
Que tudo voltaria a ser como era dantes
Todos os aspectos voltariam, semelhantes
Para que a tradição entre eles se perpetuasse

13.01.2010

Assim terminou a sequência de justiça imanente. As histórias em verso fascinam-me cada vez mais. Há uns tempos terminei outra, um pouco maior do que esta.

Justiça imanente - parte XX



Sem lhe cobrar, a prima pagara as despesas
Esperando até que chegasse o seu salário
No final do mês, que viesse sem surpresas
Já havia poucos mantimentos no armário

Onde houvera revolta, preguiça ela discernia
Arrependia-se de a ter levado a ir para o café
Ela não demonstrara vontade e nem simpatia
Lamentava-se, como se tivesse partido um pé

A prima amaldiçoava os seus momentos rasgados
Em que quisera ajudar quem no fundo não queria
Quis que os seus valores fossem transplantados
Para uma pessoa que nunca os apreciaria

Mas tinha pena das crianças por ela criadas
Receava que se tornassem cópias dos pais
As situações não seriam por ela ocasionadas
Sabia que ali já não poderia intervir mais

Aquela não era a sua luta, tinha de reconhecer
Por muito que lhe custasse aquela realidade
Apesar da traição, o homem iria sempre vencer
E a mulher continuaria feliz na sua futilidade

13.01.2010

Justiça imanente - parte XIX



As disposições sofreram alterações graduais
A espirituosidade da prima logo estagnou
Num café um trabalho para a mulher arranjou
Estavam prontas a retomar as vidas normais

O balcão do café era um recanto do inferno
A mulher tinha ódio à função que realizava
Cada cliente lhe parecia um hostil estafermo
E a sua coluna vertebral quase se desintegrava

Para se habituar àquilo, ela não divisou maneira
O novo dia nascia sempre pior do que o anterior
Morreria se passasse deste modo a vida inteira
Como poderia ela suportar semelhante horror?

Vieram-lhe memórias não muito distantes
Da sua existência pacífica e desprendida
Que desprezara depois de ter sido traída
Como outras, que descobriram as amantes

Remexia-se, em busca de respostas às questões
Teria tomado uma decisão correcta e acertada?
Seria justo ela passar por aquelas humilhações
Se com o marido nunca lhe havia faltado nada?

06.01.2010

Justiça imanente - parte XVIII



A mulher teve uma primeira fase de pura euforia
Saboreava a frescura da ignorada liberdade
Partilhava com a prima a sua viva hilaridade
Numa grande animação aquele tempo decorria

De todas, a notícia que lhe trouxe mais alegria
Foi a que dava o seu filho curado da leucemia
 
Embriagaram-se de genuína felicidade
Cantaram honras ao abençoado dia
Sabiam que o pobre menino merecia
Curar-se de tão nefasta enfermidade

Foram momentos de alacridade
Recordações para a posteridade

06.01.2010

Justiça imanente - parte XVII



Ao início, o homem sentiu-se bastante revoltado
Quando soube da sua mulher o curioso paradeiro
Porém, daí a pouco tempo ele havia-se acalmado
Sorriu, ao concluir que a mulher não tinha dinheiro
A sogra proporcionou-lhe apoio leal e inesperado
E até o ajudou a arranjar trabalho como carteiro

Todas as semanas os seus filhinhos ele visitava
Sentia saudades dos tempos para trás deixados
Em que de uma existência plácida ele desfrutava
E os trabalhos domésticos apareciam realizados
Demoradamente as suas desventuras recordava
Os seus velhos instintos mantinham-se refreados

04.01.2010

Justiça imanente - parte XVI



Vendo a mãe sair de casa apressada
Soube que a sua ideia fora acertada

Reconhecera que os pais se desentendiam
Nos últimos tempos já nem sequer fingiam

Ainda antes da sua penosa e horrenda doença
Já lhes traçara secretamente a sua sentença

Embora não percebesse quais as verdadeiras razões
Compreendia nos pais o desencontro das suas acções

Não se revoltava, pensava em adaptar-se como pudesse
E desejava que a doença umas tréguas em breve lhe desse

A outra criança entristeceu-se ao deixar a casa onde morava
E ao não saber quando é que o seu pai para junto deles voltava

As crianças consideravam a prima divertida e engraçada
Após carregarem a carrinha irrompeu numa risota pegada

Ela imaginou o hediondo homem a fazer figuras no escritório
A jogar aos murros e ser assunto de um infindável falatório

29.12.2009