Justiça imanente - parte XIX



As disposições sofreram alterações graduais
A espirituosidade da prima logo estagnou
Num café um trabalho para a mulher arranjou
Estavam prontas a retomar as vidas normais

O balcão do café era um recanto do inferno
A mulher tinha ódio à função que realizava
Cada cliente lhe parecia um hostil estafermo
E a sua coluna vertebral quase se desintegrava

Para se habituar àquilo, ela não divisou maneira
O novo dia nascia sempre pior do que o anterior
Morreria se passasse deste modo a vida inteira
Como poderia ela suportar semelhante horror?

Vieram-lhe memórias não muito distantes
Da sua existência pacífica e desprendida
Que desprezara depois de ter sido traída
Como outras, que descobriram as amantes

Remexia-se, em busca de respostas às questões
Teria tomado uma decisão correcta e acertada?
Seria justo ela passar por aquelas humilhações
Se com o marido nunca lhe havia faltado nada?

06.01.2010

Justiça imanente - parte XVIII



A mulher teve uma primeira fase de pura euforia
Saboreava a frescura da ignorada liberdade
Partilhava com a prima a sua viva hilaridade
Numa grande animação aquele tempo decorria

De todas, a notícia que lhe trouxe mais alegria
Foi a que dava o seu filho curado da leucemia
 
Embriagaram-se de genuína felicidade
Cantaram honras ao abençoado dia
Sabiam que o pobre menino merecia
Curar-se de tão nefasta enfermidade

Foram momentos de alacridade
Recordações para a posteridade

06.01.2010

Justiça imanente - parte XVII



Ao início, o homem sentiu-se bastante revoltado
Quando soube da sua mulher o curioso paradeiro
Porém, daí a pouco tempo ele havia-se acalmado
Sorriu, ao concluir que a mulher não tinha dinheiro
A sogra proporcionou-lhe apoio leal e inesperado
E até o ajudou a arranjar trabalho como carteiro

Todas as semanas os seus filhinhos ele visitava
Sentia saudades dos tempos para trás deixados
Em que de uma existência plácida ele desfrutava
E os trabalhos domésticos apareciam realizados
Demoradamente as suas desventuras recordava
Os seus velhos instintos mantinham-se refreados

04.01.2010

Justiça imanente - parte XVI



Vendo a mãe sair de casa apressada
Soube que a sua ideia fora acertada

Reconhecera que os pais se desentendiam
Nos últimos tempos já nem sequer fingiam

Ainda antes da sua penosa e horrenda doença
Já lhes traçara secretamente a sua sentença

Embora não percebesse quais as verdadeiras razões
Compreendia nos pais o desencontro das suas acções

Não se revoltava, pensava em adaptar-se como pudesse
E desejava que a doença umas tréguas em breve lhe desse

A outra criança entristeceu-se ao deixar a casa onde morava
E ao não saber quando é que o seu pai para junto deles voltava

As crianças consideravam a prima divertida e engraçada
Após carregarem a carrinha irrompeu numa risota pegada

Ela imaginou o hediondo homem a fazer figuras no escritório
A jogar aos murros e ser assunto de um infindável falatório

29.12.2009

Justiça imanente - parte XV



A mulher regressara do cabeleireiro perturbada
Na cabeça apenas uma ideia fixa se expressava
Não mais ver do marido a face torpe, amalucada
Só de nele pensar ela depressa se exasperava

O instinto mostrou-lhe o que poderia fazer 
Ela nem por um breve instante reflectiu
Tempo era o que não pretendia perder
Telefonou e ajuda à sua prima pediu

Ela tinha uma bela carrinha monovolume
Onde cabiam roupas e objectos pessoais
Prontamente a encheram até ao cume
A seguir vieram as explicações principais

O apoio da prima foi empático, firme e solícito
Pois ela própria era há alguns anos divorciada
Independente, divertia-se de modo explícito
Sem se importar se poderia ser mal falada

Disse que para a auxiliar tudo ao seu alcance faria
Ela livrar-se-ia daquele marido nefasto e tarado
Para o conseguir, um trabalho digno arranjaria
Um novo cenário na sua vida estava montado

29.12.2009

Justiça imanente - parte XIV



Telefonou para a sogra, mas ninguém atendeu
Insistiu, deixou recado ao sinal do atendedor
Deambulou, em busca de algo mais revelador
Do que o vazio com que a sua casa o recebeu

As horas passaram, era então noite cerrada
Ele entrou no quarto do enfermo menino
Abriu o armário e começou o seu desatino
Toda a roupa tinha partido em debandada

Como era possível que tal acontecesse?
Poderia a sua esposa ter adivinhado
A traição que ele tinha consumado
Sem que ele então se apercebesse?

Para onde teria ido a mulher endiabrada?
Que lhe teria causado aquele devaneio?
Saíra como uma volátil égua sem freio
Mas na cama era uma múmia resignada

Com os diabos, ela veria brevemente
Choraria de tanto arrependimento
Tudo seria lágrima, suspiro e lamento
A sua vingança chegaria, inclemente

29.12.2009